O Planalto das Araucárias

    O planalto (planalto=regiões elevadas relativamente planas) das araucárias também é conhecido como campos de cima da serra. Sua fisionomia típica e primitiva é a composição da paisagem tomada por uma matriz de campo entremeada por galerias e capões de mata nativa. As matas de nossa região, incluídas no domínio da Mata Atlântica (lato sensu), é conhecida cientificamente como Floresta Ombrófila Mista. O termo Ombrófila  vem de “amigo das chuvas”, ou seja, é uma mata condicionada por uma grande pluviosidade,chegando em alguns lugares a 3.000mm anuais (em Porto Alegre este valor não ultrapassa 1.500mm) e Mista pela presença da araucária em contraposição a Mata Atlântica do litoral, que então é denominada Floresta Ombrófila Densa.

   A Flora

   A flora de nossa região possui espécies de distintas origens ou seja, que migraram lentamente ao longo de milhares de anos e que aqui se estabeleceram, as principais origens são: andina e tropical. Das regiões andinas vieram as espécies características de climas frios por exemplo: a araucária (Araucaria angustifolia), o pinho-bravo (Podocarpus lambertii), a casca d’anta (Drimys winteri), o guaperê (Lamanonia ternata), o leiteiro (Sapium glandulatum) e a gramimunha (Weinmannia paulliniifolia).
Enquanto que de regiões tropicais do centro do Brasil, vieram espécies como ipês (Tabebuia sp.), canelas (Ocotea, Nectandra, Aiouea,...), camboatás (Matayba elaegnoides,...),fumo-bravo (Solanum spp.) e açoita-cavalo (Luehea divaricata).
   Entre as espécies mais conhecidas seja pela sua abundância seja pela sua importância econômica e cultural temos a erva-mate (Ilex paraguaiensis), a bragatinga (Mimosa scabrella), o ipê (Tabebuia sp.), o cedro (Cedrela fissilis) e o cambuím (várias espécies).

   A Fauna

   A fauna desta região assim como a vegetação possui espécies provenientes de diferentes origens geográficas, o que faz que esta região também seja extremamente rica em diversidade de espécies. Nos dias de hoje ainda são descritas novas espécies animais e vegetais na região, que até então a ciência desconhecia, como alguns invertebrados e pequenos roedores.
Por outro lado, muitas espécies que ocorriam na nossa região não mais existem devido, principalmente, a caça indiscriminada. Como exemplo podemos citar a anta, a maracanã (Ara maracana, tipo de arara), o queixada (Tayassu pecari) e o cateto (Tayassu tajacu), os dois últimos espécies de porcos selvagens, além da onça-pintada (Panthera onca). Outros animais estão na iminência de desaparecer como o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), o tatu-de-rabo-mole (Cabassous tatoay) e o veado-campeiro (galhado, Ozotocerus bezoarticus).

   Alguns mamíferos da nossa região:

   Morcegos - Na verdade existem muitas espécies de morcegos, só no Rio Grande do Sul são 31 espécies, e em nossa região devam existir algo entre 10 a 12 espécies, ao contrário do que se imagina a maioria delas não se alimenta de sangue e sim de néctar, frutas e insetos, inclusive há o morcego-pescador que como o nome sugere alimenta-se de peixes. Só uma espécie alimenta-se de sangue, que chama-se morcego-vampiro (Desmodus rotundus). Os morcegos são muito importantes como dispersores de sementes e polinizadores, logo, devemos preserva-los. Outros exemplos de nossa riqueza faunística são o furão, o gambá (também chamado de raposa), as cuícas (existem várias espécies de cuícas), os tatus (ocorrem na região pelo menos três espécies de tatus), o ouriço-caxeiro, o preá, o serelepe, a capivara, o bugio-ruivo, entre outros.

   Contudo, é sabido que muitas espécies que ocorrem em São Francisco de Paula, encontram-se na lista de espécies ameaçadas do estado do Rio Grande do Sul, conforme Decreto Estadual. Abaixo relacionamos algumas:
Bugio-ruivo (Alouatta guariba): vive em bandos pequenos de até 12 indivíduos, geralmente ocorre a presença de um único macho dominante no bando. Passam grande parte do tempo descansando, isto se deve a sua dieta pobre em energia. Eles alimentam-se basicamente de folhas e brotos, com alguma participação de frutos. Quando os pinhões estão disponíveis estes também são consumidos.
Gatos-do-mato - na verdade existem pelo menos 4 espécies de gatos-do-mato na região. A jaguatirica (Leopardus pardalis), o gato-mourisco (Hepailurus yagouaroundi), o gato maracajá (L. wiedii) e o gato-do-mato-pequeno (L. tigrinus). Todos citados como ameaçados de extinção.

   Leão-baio (Puma concolor): também conhecido como onça-parda, puma, suçuarana, é um dos grandes predadores terrestres do Brasil, podendo chegar a mais de 60kg, só perdendo em tamanho para a onça-pintada.
Veados: ocorrem na região 4 espécies de veado. Três de chifres simples (não bifurcado) e uma espécie com galhada, no caso o veado-campeiro. As espécies de chifre simples são, o veado-mateiro (Mazama americana), o veado-bororó (Mazama nana) e o mais comum, veado-virá ou catingueiro (Mazama guazoubira). Estes nomes comuns podem mudar conforme a região.
   Outros animais ameaçados são: tamaduá-mirim, lobo-guará, quati, irara, lontra, paca e cutia.

   Entre as aves da região as mais comuns e conhecidas temos:

   Siriema: Uma ave que praticamente não voa, assim como o nambu e o macuco. Alimenta-se de serpentes e outros pequenos animais encontrados sobre o campo.
   Tucano-de-bico-verde: o único tucano da região.
Papagaios: ocorrem três espécies de papagaios na região, a mais comum e menor é a baitaca ou maitaca, as outras duas espécies (papagaio-de-peito-roxo e papagaio-charão) estão ameaçadas de extinção e podem desaparecer da região se as pessoas continuarem a capturar filhotes para venda. Por isso nunca compre animais silvestres. Existe um programa de conservação do papagaio-charão sediado em Passo Fundo (UPF), mas com ações em todo estado, é o “Projeto-Charão”.
   Uma ave grande, com grande função no ecossistema como dispersora de sementes é o jacu. Antigamente também encontrávamos nas encostas da serra, a jacutinga, contudo acreditamos que não mais existam indivíduos desta espécie na região de São Francisco.
   Outro animal típico de nossa paisagem é a Curicaca (Cury significa araucária em guarani). Esta ave tem o bico longo e curvo para baixo, uma adaptação para melhor obter seu alimento.
   O famoso Quero-quero é considerado a espécie símbolo de nosso estado.

   Apesar do rigoroso inverno muitas espécies de anfíbios e répteis ocorrem no Planalto das Araucárias. O número total de espécies de anuros (sapos e rãs) na região ultrapassa a marca de trinta espécies. Cada qual com suas particularidades de habitat e de alimentação. Uma espécie de anuro inclusive é endêmica desta parte do planalto é o sapinho-verde-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus cambaraensis) e ameaçada de desaparecer.
   Entre as serpentes, a grande maioria das espécies não é peçonhenta. E todas elas desempenham atividades muito importantes para o equilíbrio natural e para a economia da região, como por exemplo o controle de pequenos roedores.
   Existe uma espécie de serpente muito ameaçada de desaparecer é a cotiara (Bothrops cotiara). Parente das jararacas ela é exclusiva das regiões de campo de cima da serra.

 

   A Araucária

   A araucária (pinho, pinheiro-brasileiro, pinheiro-do-paraná) é uma gimnosperma, conífera, seu ancestral surgiu há cerca de 200 milhões de anos, dando origem a várias espécies, cerca de 20, todas distribuídas no hemisfério sul. Na América do Sul temos duas espécies de araucária, a brasileira (que na verdade também se estende pela província de Missiones Argentina e Paraguai) e que se chama Araucaria angustifolia e a araucária chilena que se chama A. araucana. Esta última não perde seus galhos mais velhos, tomando o aspecto de cone por toda sua vida.    Ao contrário da nossa que forma um cálice quando adulta.
   As florestas de araucária nunca ocorrem abaixo da altitude de 500 metros de altitude. A araucária pode chegar a 50 metros de altura e viver por séculos. A araucária é dióica (di=duas e óica=casa), ou seja, existem indivíduos machos e fêmeas. Só as fêmeas produzem o pinhão. Eventualmente podem existir árvores monóicas, que então produzem tanto pinhas como estróbilos (flores femininas e masculinas, respectivamente).
   Os pinhões produzidos pelas araucárias são de grande importância para a fauna e para as pessoas como alimento. Permitem a manutenção de populações de animais silvestres a níveis de densidade superiores ao encontrado em áreas sem araucária. Entre os animais que utilizam o pinhão temos as distintas espécies de veado, pequenos roedores nativos, serelepe, papagaios, bugios, tirivas, pacas, sabiás-cinza, ouriços-caxeiros, cutias e gralhas-azuis, estas duas grandes plantadoras de araucária já que enterram os pinhões para consumo posterior,o que as vezes não ocorre, permitindo assim que a árvore germine.
   A madeira da araucária é considerada de excelente qualidade e por conseqüência hoje apenas 3% da mata com araucária continua em pé. Claro que a substituição de florestas por lavouras também contribui significativamente para isto.
   Hoje a araucária é protegida por lei. E a coleta e venda de pinhões só é permitida à partir de 15 de abril. Isto para deixar sementes suficientes na natureza para a alimentação dos animais silvestres e para que novos indivíduos de araucária possam germinar, renovando a floresta.

 

   A Floresta Nacional de São Francisco de Paula

  Em 1945 o Instituto Nacional do Pinho (INP) criou a Estação Florestal de Morrinhos, atualmente Floresta Nacional de São Francisco de Paula (FLONA-SFP), administrada pelo ICMBio, constitui-se numa Unidade de Conservação de Uso Sustentável. O objetivo deste tipo de Unidade de Conservação é compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável dos seus recursos naturais. Sendo a categoria Floresta Nacional definida como uma área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas tendo como objetivo básico o uso múltiplo sustentado dos recursos florestais e a pesquisa científica, além das atividades de educação ambiental, recreação, lazer e turismo. A FLONA de São Francisco de Paula localiza-se neste mesmo município (nordeste do Rio Grande do Sul), caracterizado pelos Campos de Cima da Serra e pelas matas com araucária (Floresta Ombrófila Mista ou Mata Atlântica (lato sensu). A FLONA-SFP com uma área de 1.606ha alcança altitudes superiores a 900 metros, apresentando uma variação altitudinal de 300 metros. O clima é temperado (CFbl), com freqüentes geadas e nevadas ocasionais no inverno. Esta Unidade, incluída na área de cobertura da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica como área núcleo, e considerada uma região de “alta” à “altíssima prioridade” para a conservação (Workshops de Áreas Prioritárias para a Conservação da Mata Atlântica, 1999), está estrategicamente inserida no Corredor Ecológico do Rio dos Sinos, entre os Corredores Ecológicos do Rio Caí e do Rio Tainhas. Tendo num raio de 60 km várias outras Unidades de Conservação (U.C.s) estabelecidas ou em implantação (PARNAs de Aparados da Serra e Serra Geral, REBIO da Serra Geral, ESEC de Aratinga, FLONA de Canela, Parque Estadual do Caracol, APA de Tainhas, entre outros), e áreas particulares (Pró-Mata, Parque das Cachoeiras, entre outros) que juntas formam um grande e importantíssimo “arco” de biodiversidade ao longo das escarpas do planalto.

  Na FLONA-SFP são encontrados reflorestamentos de Araucaria angustifolia, Pinus, Eucaliptus e outras essências com fins comerciais totalizando uma cobertura de cerca de 600ha. A Floresta nativa ocupa 900ha. Também ocorrem pequenos trechos de campo nativo e banhado. Este mosaico de ambientes naturais e construídos juntamente com o gradiente altitudinal resulta em uma considerável riqueza de espécies. Entre os elementos faunísticos destaca-se a grande riqueza da avifauna, composta por mais de 200 espécies, residentes ou não, e a presença de mamíferos ameaçados como o leão-baio (Puma concolor) e o bugio-ruivo (Alouatta guariba). Mais de 20% das espécies terrestres da fauna ameaçada de extinção do Estado (Dec. 41.672) já foram registradas na FLONA-SFP ou em seu entorno próximo. Com respeito a sua vegetação nativa, apesar desta sofrer grande influência da floresta atlântica, ela apresenta espécies de origem andina e antártica como, por exemplo, a casca d’anta (Drimys winteri) e própria araucária (Araucaria angustifolia).

  Diversas são as atividades desenvolvidas na FLONA-SFP. A exploração dos recursos florestais visa uma produção madeireira média de 10.000 mst de madeira/ano, conforme previsto em seu Plano de Manejo, sendo também exploradas a semente da araucária (pinhão) e a samambaia-preta, buscando sempre a sustentabilidade da exploração. A FLONA-SFP também recebe, e disponibiliza alojamento em alguns casos, com média de dois mil visitantes/ano nos últimos 5 anos. Entre estes, alunos de escolas da região ou da grande Porto Alegre, alunos de graduação e pós-graduação de universidades do Estado, pesquisadores e visitantes. No momento, pesquisadores de sete universidades (UFRGS, UNISINOS, PUCRS, UFSM, USP, UFRJ e UFPEL), além da Fundação Zoobotãnica, desenvolvem atividades de pesquisa na Floresta Nacional de São Francisco de Paula.
  
 Duas trilhas ecológicas são disponibilizadas aos visitantes, com o acompanhamento de um guia da FLONA e agendamento prévio, além de 5 hospedarias para grupos de alunos e pesquisadores As visitas e hospedagens devem ser agendadas com antecedência.

Educação Ambiental na FLONA SFP

Informações gerais da FLONA SFP e região para preparação dos alunos pelos Professores, antes da visitação.

*Fonte para citação:
   ICMBio, Floresta Nacional São Francisco de Paula/RS: Educação ambiental na Floresta Nacional de São Francisco de Paula/RS , Revisão do Plano de manejo, equipe FLONA SFP/RS, documento não publicado, 2007.
Unidade de Conservação Federal de Uso Sustentável
Caixa postal 79 CEP 95.400-000 São Francisco de Paula / RS.
 
Email: flonasaofranciscodepaula.rs@icmbio.gov.br